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Atualize-se - 06/08/2021 - 10:46:29
O Sol é para todos
“Só existe um tipo de gente: pessoas.”

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Arte: Carolina Amancio
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Torto Arado

O Sol é para todos


Artigo de Ana Paula de Melo Gomes, assessora do 5.º JECC da Capital e membro do

Clube do Livro Direito e Literatura, sobre obra de Harper Lee, publicada pela editora José Olympio. 


“Só existe um tipo de gente: pessoas.” 



Sob a narrativa de Scout, personagem de apenas seis anos de idade, a autora Harper Lee nos leva à cidade imaginária de Maycomb que, segundo tem-se conhecimento, se fôssemos procurar no planisfério político, suas características se assemelhariam ao município de Monroeville, situado no Estado do Alabama, Estados Unidos, onde a escritora nasceu, levando em consideração a análise das condições ambientais e o modo de vida das pessoas, assim como a época da escravidão dos negros. 

O título “O Sol é para todos” não é a fiel tradução do original (To Kill a Mockingbird). Poderíamos dizer “matar um pássaro”, uma vez que mockingbird é uma espécie de ave existente naquela região. Do ato de matar um pássaro, pensa-se num trocadilho, assim, empregando-se a expressão, ficaria: "o ato de matar a esperança" (segundo a ferramenta Google Tradutor), nome que simboliza as lições de aprendizado por quais passou Scout, na sua evolução como pessoa durante o enredo, o que se entende por “amadurecimento”. 

Ainda sobre o título original, ele merece que se fale mais sobre essa simbologia, da grandiosidade da autora em buscar um nome que menciona um verbo de ação – matar, e uma espécie de pássaro que voa nos céus da história, o qual, nas palavras de Adam Strom¹ (2015), indica “a perda da inocência”, o que se observa no desenvolvimento da personagem, na sua vivência com os fatos narrados, na visão da realidade cruel. Caminho esse que é percorrido por Scout e é, fascinantemente, nos contado em primeira pessoa.

Por outro lado, o título em português familiariza-se bastante com o tema central da história: “(des)humanização”. Racismo e injustiça são assuntos que percorrem a obra escrita em 1960, que se reporta a fatos ocorridos numa pequena cidade fictícia do início dos anos 1930, e ainda muito presentes na contemporaneidade, como algo que se impregnou e precisa, literalmente, ser lavado dos corações e das mentes “(des)humanas”. 

Na obra, questões sociais e políticas, sobretudo sobre a segregação racial, são descritas com riqueza de detalhes pela autora. Havia escola para “pele branca”, escola para “pele negra”, igreja para “pele branca”, igreja para “pele negra”, dividindo a convivência entre os moradores. Mas a pureza da criança, como era a essência de Scout, não distinguia as pessoas por cor. A criança nasce inocente e muitos preconceitos são a elas apresentados como algo natural, por isso a importância dos bons exemplos dentro do próprio lar. 

Scout é uma personagem perspicaz, cheia de curiosidade, e que cresceu num ambiente saudável, ao lado do pai que é um homem íntegro e do bem. Sem se preocupar com as expectativas da sociedade machista em que vivia, ela gostava de vestir um macacão e estava sempre a brincar com seu irmão, Jem, e o seu amigo Dill. (Ah! Essas crianças aprontavam muito com a vizinhança! A autora traz passagens marcantes das brincadeiras cheias de aventuras com o vizinho Boo, e das visitas de Scout à vizinha, Maudie Atkinson, com os quais, lindamente, desabrochou uma amizade e um cuidado mútuo. Com total maestria, a autora nos ensinou a força dos laços afetivos. Denota-se que nenhum personagem ficou sem um papel fundamental nesse enredo).

Sua visão de mundo modificou muito quando Calpurnia, babá que criou Scout, levou-a à igreja, e ela questionou o porquê de existirem lugares só para brancos e lugares somente para negros. Essa percepção fez a narradora traçar suas próprias concepções sobre os problemas, como a injustiça, e mostrou que ela tinha empatia pelas pessoas.

O crescimento da personagem foi intensificando-se a partir de um acontecimento que abalou a região, o estupro de uma mulher branca. Estupro é um crime repugnante e inaceitável. Acrescentando-se ao fato a análise sob o prisma processual, diante das circunstâncias em que o caso foi denunciado, em que nenhum abalo ocorreu quando foi feita a acusação de um homem sem indícios do delito, apenas baseada na cor da sua pele. Sim, na cor da pele! Uma trama que é visível, mas o racismo cegou os jurados. 

Lembrando que além do racismo o livro aborda, também, o machismo, e a pequena Scout, com seu olhar questionador, quer uma resposta para aquele corpo de jurados à sua frente, o porquê dele ser composto apenas por homens. Observe que a autora é formidável ao nos enriquecer com uma leitura tão provocativa. Imaginem o impacto dos temas quando ocorreu o lançamento da primeira edição em 1960! 

O julgamento de Tom Robinson é a soma de todas as injustiças praticadas contra os negros até hoje. Sintetiza que a luta por liberdade, igualdade e fraternidade precisa de muita coragem e determinação das classes vulneráveis e representa o posicionamento, diante dos obstáculos, para a conquista diária por respeito à cor, à etnia, à religião, à opção sexual. Existem muitos “Tom Robinson”, alguns flagrantemente injustiçados, quando apelam por Justiça, e outros milhares abaixo dos dados oficiais, como órfãos de uma prestação jurisdicional, porque são abafados e necessitados de uma voz.

Sempre importante ressaltar que a escravidão dos negros, que se prolongou por décadas, foi um dos maiores casos de genocídios da história, condição que se sustentou com a conivência do Estado e da religião. Nas palavras do filósofo Achille Mbembe (Necropolítica, N-1 Edições, pág. 27), “Qualquer relato histórico do surgimento do terror moderno precisa tratar da escravidão, que pode ser considerada uma das primeiras manifestações da experiente experimentação biopolítica”. 

No livro, a família de Scout tinha no patriarca Atticus Finch, um advogado respeitado, o senso de realidade e o discernimento advindo da ciência (com base no exemplo do pai), de que não há distinções entre os homens em razão de cor ou de condição social.  Atticus Finch foi o responsável pela defesa do homem negro acusado de estuprar uma mulher branca neste pequeno município de Maycomb, e ele cumpriu fielmente seu papel sem se preocupar com a rejeição de quem considerava o negro um ser sem direito à defesa e ao contraditório. Ele viu os filhos sofrendo com a repercussão do caso, mas se manteve firme, sendo profissional e ético. Não se corrompeu. Da experiência, ensinou aos filhos o respeito ao próximo, o direito de defesa e a moral.

Citando mais uma vez Achille Mbembe, no que diz respeito à escravatura “(...) a condição de escravo resulta de uma tripla perda: perda de um ‘lar’, perda de direitos sobre seu corpo e perda de estatuto político. Essa tripla perda equivale a uma dominação absoluta, uma alienação de nascença e uma morte social (que é expulsão fora da humanidade)” (Necropolítica, N-1 Edições, pág. 27). E a pequena Scout não somente narra a perda ou mesmo a falta de identidade de um ser humano por ser negro, como demonstra toda sua indignação pelas injustiças relatadas.

Com esse enredo atemporal, podemos situá-lo nos dias atuais ao tratarmos do etiquetamento social, quando uma classe vulnerável é marginalizada e pessoas são acusadas de um crime por serem negras e pobres, por exemplo. Também conhecida como teoria da rotulagem ou de Labelling Aprouch. Passados mais de sessenta anos da publicação de “O Sol é para todos”, vivenciamos tantas situações semelhantes. Se existe esperança para um futuro sem discriminações raciais, Scout é a prova: olhos de criança, que tudo enxerga com o coração!

O ato de matar um pássaro, ainda muito frequente na atualidade, embora sejam desproporcionais os dados (levando em conta os fatos e a potencial falta de seu reconhecimento, quer seja considerando que nem sempre são levados à justiça ou mesmo noticiados), poderia hoje ser narrado por tantas “Scout”, moradoras de Comunidades. Constataríamos, na literatura, que é a inocência que perdemos quando nos vemos diante das injustiças, como aconteceu com Scout. Infelizmente, não é exagero dizer que as impressões sobre o racismo nos Estados Unidos de 1930, retratadas neste livro, não estão distantes das que ocorrem na sociedade do século XXI.  

A conclusão, extraída dessa mescla de literatura e direito, ensina-nos que a esperança para um mundo mais humanizado, com respeito às diferenças sociais, é tão somente uma questão de consciência do saber, que, nas palavras de Scout, “só existe um tipo de gente: pessoas”.

¹ https://facingtoday.facinghistory.org/what-does-it-mean-to-kill-a-mockingbird


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