?‘Marrom e amarelo’ do gaúcho Paulo Scott, foi a obra escolhida para encerrar o terceiro ciclo de leituras compartilhadas do Clube do Livro: Direito e Literatura, promovido pela Biblioteca do Judiciário de Alagoas. Por meio de um texto de ficção, o autor retrata um Brasil contemporâneo, que vive uma crise geral agravada após críticas à forma como se dava o preenchimento das cotas para pessoas negras em universidades. Conforme o enredo evolui, o escritor aborda temas sensíveis como o racismo estrutural, o colorismo (hierarquia do imaginário social que indica que pretos de pele clara estão em condição mais favorável do que pretos da pele retinta), a ditadura militar, o mito do racismo reverso e outros assuntos.
Danielle Lins, participante do Clube desde a sua formação, em 2019, fala que diferentemente de outras obras já lidas pelo grupo com a mesma temática, o ‘Marrom e Amarelo’, por ter sido escrito por um autor brasileiro, traz um reconhecimento e uma crítica à perspectiva difundida nacionalmente de que o racismo não existe. Tal negação, segundo a analista judiciária, “dificulta a solução de problemas decorrentes dessa grande ferida brasileira que gera o silenciamento e a falta de empatia”.
“Um dos trechos mais emblemáticos para mim, mulher branca, foi uma cena em que o personagem de pele mais clara, ativista envolvido em lutas contra preconceito racial e lido socialmente como branco, chora ao ser alertado para compreender que seu irmão, negro de pele escura, sempre precisava utilizar o flash da câmera para aparecer em fotografias. De um jeito muito sutil, o autor nos mostra ali que por mais que nos esforcemos para compreender a situação do outro, há questões e dores que não nos pertencem e só terão espaço para serem resolvidas se o mais oprimido for protagonista das narrativas e agente das mudanças”, relata Danielle.
Para a servidora, debater o livro com colegas do Judiciário foi importante para compreender os privilégios de ser uma pessoa branca. “Temos a missão, enquanto membros da Justiça brasileira, de refletir e agir contra o racismo estrutural, de modo que seja possível, em breve, ver mais pessoas pretas em cargos de destaque, como juízes e desembargadores, com visões de mundo cada vez mais plurais”, opina.
Ao longo do segundo semestre de 2020, o Clube discutiu as obras “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior; "Antígona", de Sóflocles; "A filha perdida", de Elena Ferrante; e "É isto um homem", de Primo Levi. A última reunião virtual do ciclo ocorreu nesta terça-feira (26), por meio do Google Meet. Nos próximos dias será divulgada a lista de obras que comporão o quarto ciclo do grupo.
Carolina Amancio - Esmal TJAL
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