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Atualize-se - 04/08/2020 - 17:44:24
O Conto da Aia - Gilead é logo ali
Artigo da servidora do TJAL Andréa de Azevedo Santa Rosa sobre a obra da escritora Margaret Atwood

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O Conto da Aia - Gilead é logo ali


Andréa de Azevedo Santa Rosa, analista judiciária especializada
do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL) e membro do Clube do Livro: Direito e Literatura

De acordo com o dicionário Houaiss, a distopia consiste em um “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação”. Seria, pois, o oposto da utopia – lugar de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos. A literatura distópica é utilizada para criticar ou ironizar os modos de vida da sociedade contemporânea, servindo de alerta para os males que eles podem trazer. Vê-se, assim, que a distopia tem a função não apenas de entreter, mas de servir de alerta,fomentando reflexões sobre o nosso estilo de vida.

Para concluir o primeiro ciclo de leituras do clube do livro Direito & Literatura, seus integrantes foram convidados a embarcar rumo à República de Gilead, cenário da obra “O conto da aia”, lançada por Margaret Atwood em 1985. Ao aportarem nesse novo país, localizado onde antes existiam os Estados Unidos da América, os leitores se depararam com um Estado teocrático e totalitário, regido por interpretações extremadas do Velho Testamento. Dentre as suas características principais, estava a opressão das mulheres, cerne fundamental da narrativa de Atwood.

A história é contada do ponto de vista de Offred, uma mulher que nasceu e cresceu livre, constituindo família na vida adulta, mas que perdeu toda a sua liberdade e individualidade com a chegada do novo regime. Logo de início, Offred nos apresenta a divisão das mulheres em castas, perpetrada em Gilead: temos as “tias”, responsáveis por educar as mulheres e prepará-las para o novo sistema; as “marthas”, responsáveis pelas tarefas domésticas; as “esposas”, mulheres de valor social mais elevado, sendo as senhoras do lar e, finalmente, as “aias”, mulheres cujo objetivo é procriar e dar um filho saudável para o comandante e sua esposa, sendo tal tarefa de extrema importância,haja vista a onda de infertilidade que acometeu o país após um desastre nuclear. É nessa última categoria que Offred está inserida.

Além desses grupos, existem também as chamadas “não mulheres”, que seriam aquelas que não se submetem ao sistema posto  como, por exemplo, as feministas. Diante do perigo que representam para a manutenção da nova república, tais mulheres são exiladas nas colônias, locais marcados por um elevado nível de radiação, onde a sobrevida é diminuta. Apesar do papel relevante que as Aias possuem em Gilead, elas são desprovidas de qualquer direito: são separadas de suas famílias, não podem ler ou escrever, não podem confraternizar com outras pessoas, sejam elas aias ou não, e são obrigadas a manter relações sexuais com os comandantes nas chamadas “cerimônias”, para que possam conceber o tão sonhado filho. Caso não tenham êxito nesse intento após certo período, as aias são mandadas para as terríveis colônias, já que em Gilead, a infertilidade é atribuída exclusivamente às mulheres.

No decorrer da leitura, chama atenção o esforço empreendido pelo novo regime para acabar com a individualidade das mulheres, especialmente das aias. Para isso, mulheres de um mesma casta são obrigadas se vestirem de maneira uniformizadas e as aias perdem o seu nome, passando a serem denominadas pela junção da partícula “of” com o nome do comandante a que servem (o nome da narradora, por exemplo, Offred, significa “de Fred”).

Embora sejam tratadas como seres de uma categoria inferior, os mandatários da República de Gilead reconhecem implicitamente que uma união entre as mulheres seria perigosa para o novo regime, por isso esforçam-se para fomentar a rivalidade feminina, inicialmente, dividindo-as em castas, mas também induzindo as aias a desconfiarem umas das outras, o que evita a criação de qualquer espécie de aliança entre elas.

Em sua narrativa, Offred alterna fatos do passado, quando ainda havia liberdade, e a realidade do presente, nos mostrando como se deu a ascensão da nova ordem social. Após um atentado contra o presidente e o congresso, atribuído a radicais islâmicos, a constituição foi suspensa, sem que houvesse qualquer reação da sociedade – afinal, a supressão de direitos parecia necessária, à época, para combater o mal a que estavam expostos. Em seguida, jornais foram censurados, as mulheres foram proibidas de ter acesso a bens ou a empregos e as universidades foram fechadas. Offred destaca, também, que, ao contrário do que poderíamos imaginar, a retirada de direitos não foi feita às escuras; as pessoas tomavam conhecimento do que estava acontecendo, contudo, consideravam algo distante, que não as atingiria e que, portanto, não merecia atenção. Em um dos trechos mais fortes do livro, a narradora nos convida à reflexão:

  “Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem que de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente, você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a pauladas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas. Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens de matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade” ¹


Offred nos mostra, assim, como a falta de empatia pode ser perigosa, já que só nos damos conta da ameaça que a retirada gradual de direitos representa, quando a realidade bate à porta, levando embora a nossa tão cara liberdade. Ao construir sua narrativa,  Atwood carrega as tintas ao expor a opressão diuturnamente vivida pelas mulheres em Gilead com o intuito de que, mesmo o leitor mais desavisado, consiga identificá-la. É inegável todavia, que existem pontos de convergência entre os valores defendidos em Gilead e o comportamento da nossa própria sociedade, como a desvalorização do conhecimento, a responsabilização da mulher pelos erros dos homens, a culpabilização da mulher vítima de violência – física ou sexual -, a utilização do nome de Deus para a prática de atos violentos, a demonização e a hipersexualização do corpo feminino e a marginalização da mulher que se recusa a exercer o papel que a sociedade lhe deseja impor, como, a mulher que opta por não ter filhos.

O conto da aia exerce com maestria a função a que se propõe. Apresenta-nos um cenário cruel e opressivo, que apesar de parecer algo distante, guarda significativas semelhanças com a nossa realidade, seja pelo desprezo ao conhecimento que, nos últimos anos nos tem assombrado todos os dias, seja pelo desrespeito aos direitos das mulheres, materializado pelo crescente número de feminicídios.

Atwood nos propõe uma importante reflexão sobre a importância da separação entre Estado e religião, da liberdade de imprensa, da disseminação do conhecimento e,principalmente, da liberdade da mulher, mostrando-nos que não estamos imunes ao surgimento de um Estado totalitário e, tampouco, à perda de direitos e de dignidade daí decorrentes se não nos mantivermos vigilantes. Esse é o grande mérito da obra que, trinta e cinco anos após o seu lançamento, ainda permanece atual.

¹ ATWOOD, Margaret Eleanor - O conto da aia. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. p. 71.

Os textos compartilhados pelo Atualize-se não refletem, necessariamente, as opiniões da Esmal ou de quaisquer membros de sua equipe diretiva. 


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