A Escola Superior da Magistratura de Alagoas (Esmal), por meio do projeto Justiça que Lê, da Biblioteca do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), iniciou, nesta quinta-feira (20), a leitura guiada do livro Um Defeito de Cor, da escritora Ana Maria Gonçalves. A iniciativa, que está alinhada à Política de Equidade Racial do Poder Judiciário de Alagoas, reúne participantes para discutir a obra a partir de perspectivas históricas, sociais, culturais e jurídicas.
No primeiro encontro, conduzido pela professora Luíza Cristina Silva, a trajetória e os deslocamentos de Kehinde, protagonista do romance, foram utilizados como pontos de partida para pensar a história do Brasil do século XIX. A discussão mostrou como as experiências da personagem permitem observar a escravização não apenas pela violência imposta à população negra, mas também pelas estratégias desenvolvidas para sobreviver, preservar vínculos, conhecimentos e modos de vida.
Professora Luíza Cristina é mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Foto: Maria Clara França - Ascom/Esmal
Um dos pontos discutidos foi a resistência como uma tecnologia de sobrevivência. As estratégias utilizadas pela população escravizada para enfrentar a violência e as imposições do sistema escravista foram compreendidas como formas de resistência e insubordinação, mas também como mecanismos para garantir a continuidade da própria existência.
Para Luíza, Um Defeito de Cor possibilita construir uma perspectiva diferente da narrativa tradicional sobre a formação do país. A professora define a obra como uma “contranarrativa à história do Brasil do século XIX”, por recuperar experiências e conhecimentos que foram historicamente negados em outros espaços.
“A gente tem uma história que conta um Brasil que é negado em outros espaços de conhecimento”, afirmou. Segundo ela, a leitura permite ainda dialogar sobre filosofias africanas, cosmologias iorubás e a produção de outros modos de vida diante de uma sociedade marcada pelo racismo.
Deslocando o olhar sobre a história
A partir da leitura e diálogo sobre os primeiros capítulos, os participantes refletiram sobre o tráfico transatlântico, o Brasil Colonial, a cosmogonia e a perda familiar. A trajetória de Kehinde possibilitou discutir como os deslocamentos da personagem não representam apenas mudanças geográficas, mas também revelam diferentes experiências e estratégias construídas pela população negra em meio à escravização.
Nesse sentido, a literatura funciona como uma ferramenta para questionar narrativas únicas sobre a história brasileira e trazer para o centro do debate conhecimentos, culturas e experiências produzidos pela população negra.
“É uma obra que transforma, que, como falaram, é um deslocamento na história do Brasil e ela possibilita outros encontros e reflexões”, destacou a professora.
Participantes durante o primeiro encontro da leitura guiada de Um Defeito de Cor. Foto: Maria Clara França - Ascom/Esmal
Próximos encontros
Esta é a segunda edição da leitura guiada da obra para servidores e magistrados do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL). O primeiro grupo participou dos encontros entre os meses de julho a outubro de 2025. Já a programação da nova turma segue até novembro.
No dia 24 de setembro, serão discutidos os capítulos 4, 5 e 6, com temas relacionados à divisão do trabalho escravo e às dimensões jurídicas do Brasil colonial.
Em 29 de outubro, o debate será sobre os capítulos 7 e 8, que abordam resistências e aquilombamentos, revoluções e revoltas e a recusa ao sistema escravista.
O último encontro ocorre em 26 de novembro, com os capítulos 9 e 10, que tratam do Brasil pós-colonial, das relações entre Nigéria e Brasil e das festas afro-religiosas.
Maria Clara França - Ascom/Esmal