Cerca de 200 estudantes da rede pública de ensino participaram, ao longo desta semana, de ações da Jornada Antibullying, promovida pelo Programa Cidadania e Justiça na Escola (PCJE), em Maceió. As atividades incluíram palestras com o tema Bullying não é brincadeira, voltadas à conscientização sobre prevenção, responsabilidade coletiva e consequências legais da prática.
Na terça-feira (7), 120 alunos da Escola Municipal Pompeu Sarmento participaram da atividade. Já nesta sexta-feira (10), outros 80 estudantes das escolas estaduais Professor José da Silveira Camerino e Princesa Isabel acompanharam a palestra realizada no Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa). Ambas as palestras foram proferidas pelo juiz André Gêda, titular da 10ª Vara da Comarca de Arapiraca.
Bullying como crime e responsabilidade coletiva
Durante a palestra no Cepa, André Gêda destacou que o bullying deve ser compreendido como uma prática grave, com impactos diretos na vida das vítimas.É uma prática nefasta, que atinge muito o lado psicológico das vítimas, além de envolver agressões físicas, morais e psicológicas, afirmou.
O magistrado também explicou que determinadas condutas associadas ao bullying podem configurar atos infracionais. Quando você chuta ou empurra alguém e deixa marcas, isso pode ser caracterizado como ato infracional análogo à lesão corporal. Quando se imputa falsamente um crime a alguém, como dizer que a pessoa furta, isso configura calúnia, pontuou.
Segundo ele, o enfrentamento ao problema exige o envolvimento de toda a sociedade. Muitas pessoas acham que é dever apenas da escola, mas é um dever de todos. Inclusive dos colegas que presenciam a situação, que precisam desenvolver um olhar crítico e participativo para intervir e evitar que essa prática continue, ressaltou.Palestras sobre bullying mobilizam estudantes e reforçam cultura de respeito nas escolas. Foto: Filipe Norberto- Ascom/Esmal
Dados reforçam avanço e persistência do problema
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, apontam que 39,8% dos estudantes de 13 a 17 anos já sofreram bullying, o equivalente a quase quatro em cada dez adolescentes no país.
O levantamento também indica que 27,2% dos alunos foram humilhados duas ou mais vezes, evidenciando a persistência dos episódios. Em muitos casos, as agressões estão relacionadas à aparência física, como rosto, cabelo e corpo.
Além disso, 16,6% dos estudantes relataram já ter sofrido agressão física de colegas, o que demonstra o potencial de agravamento dessas situações no ambiente escolar.
Os dados atualizam o cenário anteriormente apontado pelo IBGE, que já indicava que cerca de 25% das crianças e adolescentes haviam vivenciado algum tipo de bullying.
Conscientização dentro e fora da escola
Para educadores, o bullying ainda é um desafio cotidiano, muitas vezes disfarçado de brincadeira. A professora Renata Leão avalia que o problema persiste, mas vem sendo mais discutido nos últimos anos.
Muitas vezes, o que parece uma brincadeira é, na verdade, uma agressão verbal. Por isso, a gente trabalha com palestras e projetos de conscientização. Quando há casos, a escola apura e dialoga com os envolvidos, explicou.
Ela também observa mudanças no comportamento dos estudantes. Há três ou quatro anos, era mais forte. Hoje, percebemos que eles estão mais conscientes, com mais autonomia. Muitos já conseguem se posicionar e questionar esse tipo de atitude entre si, afirmou.
Entre os alunos, a principal percepção é de que o bullying pode começar de forma sutil. A estudante Yara Marcela destacou que atitudes aparentemente inofensivas podem causar danos.
Muitas vezes começa com uma brincadeira repetitiva, de mau gosto. A pessoa não percebe que machucou o outro, principalmente quando envolve aparência. Isso pode afetar o psicológico e trazer consequências no futuro, como ansiedade, relatou.
Ela afirma que pretende levar o aprendizado para o cotidiano. As pessoas acham que é só brincadeira, mas quando isso se repete, deixa de ser normal e pode prejudicar muito o outro, disse.
A escola como espaço de transformação
As ações da Jornada Antibullying também reforçam o papel da escola como espaço de formação cidadã e de promoção do respeito.
Para o juiz André Gêda, iniciativas como essa ajudam a reduzir a reprodução da violência. Não é algo fácil, mas, ao agir de forma proativa, a gente contribui para diminuir esses casos, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar, concluiu.
A Jornada Antibullying teve início no município de Paripueira, dentro do cronograma de interiorização do PCJE, ampliando agora as ações também para escolas da capital.
Alunos da Escola Municipal Pompeu Sarmento participaram da programação no Dia Nacional de Combate ao Bullying. Foto: cortesia PCJE
Filipe Norberto - Ascom/Esmal
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